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Quando tinha seis ou sete anos, perguntei a meu pai porque tínhamos de aprender se no fim morríamos todos. Não me recordo da resposta. Ainda hoje não sei bem qual é. Se fosse eu, provavelmente responderia "porque tem de ser". Não há maior resposta de adulto do que esta. Fazemos as coisas porque tem de ser - ao contrário da criança que luta constantemente contra aquilo que tem de ser.
Hoje não tenho nada. Não tenho nada porque tenho demasiada coisa.
Há um mistério individual nos diálogos com Deus: devemos dirigir-nos a Deus como "você" ou como "tu"?
Devíamos ambicionar ter mais pessoas no nosso funeral do que no nosso casamento.
Os anglófonos chamam "Fall" ao Outono por causa das escorregadelas nos passeios repletos de folhas.
Nos canais informativos agora é muito comum dividirem o ecrã em vários quadrados com imagens diferentes ao mesmo tempo. Qual é mesmo o objectivo? Jogarmos ao jogo do galo enquanto vemos as notícias?
Alguém que tenha talento para a escrita não deve ver a sua vida a correr-lhe bem. Seria um desperdício!
O meu cérebro divorciou-se do corpo.
À noite, quero que a noite passe. De dia, quero que o dia passe. Em simultâneo, gostava de parar o tempo. Uma variação do Variações, talvez.
No outro dia, alguém disse-me que a vergonha vinha com retroactivos. Achei que ficava bem aqui.
Há pessoas que querem crescer como uma daquelas plantas que compramos no supermercado até que morrem quando ninguém as borrifa.
Decidiu viver cada dia como se fosse o último até que chegou o último e percebeu que afinal queria viver cada dia como se não houvesse último. Pobrezinho!
A morte choca-nos porque é um espelho. Quando nos dizem que alguém morreu, olhamos para o outro e vemo-nos a nós. Queremos saber como aconteceu como prelúdio para nós próprios. O súbito interesse pelo chocante sofrimento alheio torna-se um exercício de empatia egoísta (será isto possível?). A partir daí, tudo é representação. Ora que partam uma perna, então!
Às vezes, debruço-me sobre literatura mais ligeira com o único intuito de me entreter de forma fácil. Funciona um pouco como o lassi que é servido nos restaurantes indianos e que nos ajuda a limpar o palato antes da próxima iguaria de sabor intenso. Decidi, por isso, ler um dos livros da moda: Guncle. Há muito tempo que não lia um livro tão medíocre. São quase 500 páginas e não há uma ideia para lá de um monte de clichés e etiquetas coladas na testa de cada personagem. É tudo aquilo que podemos encontrar numa qualquer rede social amontoado dentro de um livro.
Palato limpo, embrenhei-me pelos caminhos de Mario Vargas Llosa e o seu A Tia Julia e o Escrevedor e isso sim foi uma leitura de encher a barriga. Possivelmente, o seu melhor livro (ou pelo menos, aquele de que mais gostei). Ninguém escreve como um sul-americano. Nem a maioria dos sul-americanos. Vargas Llosa foi uma dessas excepções.
Há uns anos, alguém me perguntou como se deveria reagir a um elogio. Qualquer gesto ou palavra para lá do agradecimento podem mostrar que não somos dignos desse mesmo elogio. Até mesmo uma expressão de orgulho e felicidade - "encheu tanto o peito que parecia um pavão. Não tarda sobe-lhe à cabeça!" .
O facto de estar a escrever na blogosfera facilita-me a tarefa. São apenas palavras e estão a ser ponderadas neste preciso momento em que as escrevo. Quero agradecer publicamente (um diário que serve para fazer agradecimentos públicos é algo muito bizarro) um elogio que recebi.
A Miss X, que desconheço quem seja, dedicou no seu blog palavras elogiosas a este mesmo Presidiário e não tenho outra forma de lhe agradecer que não seja por aqui. Nem todos os elogios são iguais e, desta vez, confesso o meu humilde orgulho - algo impossível para um qualquer pavão - por ver a minha escrita elogiada por uma pessoa que foi tocada por esse mesmo dom.
De regresso ao trabalho.
O dia do casamento formaliza (palavra pouco romântica, mas não fui eu que decidi que se tinha de assinar um contrato) o amor para a vida - para todos os dias. Eles vão com um nó de gravata a apertar o pescoço e elas a fazer equilibrismo sobre uns tacões que lhe dão mais cinco ou seis centímetros. Aperaltam-se para fazer da cerimónia algo solene. Não há nada menos solene que todos os dias. Se é o amor para a vida que queremos celebrar - aquele de todos os dias - deveríamos ir de fato-de-treino e chanatas. O amor não é solene. Deixemos isso para os divórcios e para os funerais. Como já escrevi um dia, o amor é fato-de-treino com elástico das calças largo e chinelo de enfiar no dedo com meia branca.
Tchim-tchim!
Tinha um capital de beleza acima do normal. Obviamente, não poderia ser comunista.
A minha força foram os pensamentos. A minha fragilidade foi a vida.
Também poderia ser o meu epitáfio.
É um pouco estranho ver jornais ou noticiários a dizer coisas como "como já tínhamos adiantado no dia X...". Era suposto escreverem mentiras e precisam de dar a nota quando acertam?