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Mais uma ideia para um epitáfio:
"Estive só a ver. Obrigado!".
Nunca podemos fazer parte da nossa paisagem. Quando muito, podemos fazer parte da paisagem que os outros vêem. Uma paisagem bonita é o mais perto que estamos de ver a felicidade com os nossos olhos. Apenas a vemos. Nunca somos.
Pedido para o post-mortem:
Uma foto minha na campa rodeado de pêras com a seguinte frase: "Aqui jaz um homem e pêras".
Ouço muitas pessoas a dizer que não percebem nada de política, mas é impossível não perceber de política.
Uma grande empresa decidiu investir numa aldeia remota para expandir o seu negócio. Este investimento, iria criar empregos directamente e gerar retorno para a própria aldeia indirectamente. Ia finalmente ser colocada no mapa. Ao sentir que isto estava prestes a acontecer, os aldeões mostraram-se resistentes e eles, até então pacatos e amorfos, mobilizaram-se para tentar impedir que isto acontecesse. Surpreendido, o CEO decidiu deslocar-se até à aldeia para tentar perceber a razão que levava estas pessoas a mostrar-se avessas ao seu plano. Quando se estava a aproximar, encontrou um pastor e decidiu abordá-lo:
- Porque é contra um investimento que vai criar empregos e gerar riqueza? - perguntou-lhe. Ao que o pastor respondeu:
- Habituei-me a viver na pacatez sem que ninguém desse conta da nossa existência. Sou contra o progresso e essas modernices.
Este texto ainda é sobre as eleições do Benfica. O Benfica é a aldeia, que eu julgava metrópole; o CEO é Noronha Lopes; os aldeões e o pastor é o eleitorado do Rui Costa - contra o progresso e essas modernices.
Nunca foi tão fácil mudar, mas os sócios do Benfica disseram que não. Depois de 4 anos, já antecedidos por mais de uma década associado a um regime que meteu o nome do Benfica na lama, quase vazios de vitórias, o risco de mudança ficava reduzido a praticamente zero. Na pior das hipóteses teríamos um Benfica Tiririca - pior do que está não fica. Ao longo da tarde, comecei a ficar assustado com aquilo que fui ouvindo: "queremos mudança, mas com os mesmos" - como se apostar na mesma fórmula e obter resultados diferentes fosse algo com alguma espécie de nexo. O voto em Rui Costa foi sobretudo um voto de rejeição em Noronha Lopes. O Benfica tornou-se um clube de medrosos que até bate recordes mundiais motivados pelo medo. Preferiram proteger a pessoa Rui Costa ao clube, ele que sempre serviu de apoio para uma série de gente pouco recomendável que gravita perto de si. Outro recorde que o Benfica vai conseguir estabelecer: pela primeira vez, um cabide vai conseguir vencer duas eleições consecutivas. A lista de Noronha Lopes é, provavelmente, a lista de profissionais mais qualificados de sempre nas eleições de um clube,mas isso assusta. É o "nosso" Rui. Tem os seus defeitos, mas é dos nossos e querem tirá-lo de lá. É particularmente surpreendente ver que a diferença a favor de Rui Costa ainda se acentua mais em quem tem maior antiguidade. Muitos destes sócios assistiram aos áureos anos 60 ou à gloriosa década de 80 e a lição de benfiquismo que têm para nos dar é o culto e validação da mediocridade. Rejeitar Noronha Lopes deste modo tão estrondoso num momento em que nunca foi tão fácil mudar é ter medo de ser feliz. Normalmente, quem tem medo de ser feliz tem mais azar do que os outros. É um Benfica de brandos costumes que é pisado, humilhado, vergado e derrotado e que pela via do voto não se revolta. É o Benfica do respeitinho e do pouco barulho. O Benfica que vira a cara para o lado quando lhe pisam a cabeça. O Benfica que diz que é predador, mas quando lhe cheira a sangue identifica-se como herbívoro. O Benfica que dá a outra face para levar a estalada com medo de não ir para o céu.
Hoje sinto-me triste e impotente perante o resultado das eleições. Provavelmente, vai haver segunda volta, mas será apenas um penalti sem guarda-redes para confirmar mais 4 anos de Rui Costa à frente do clube. Gosto demasiado da Democracia para desistir dela. Gosto tanto da Democracia que nunca me cansarei de a criticar para tentar que um dia seja melhor. À frente virá a conversa da união. Era nestas eleições que tínhamos de dar a mão ao Benfica, mas os sócios decidiram mordê-la. Eu, e muitos outros que pensam como eu, não abandonaremos o Benfica, mesmo que se tenham decidido por mais 4 anos ao abandono. Não sou sócio de rasgar cartões de sócio ou deixar de pagar quotas. Continuarei a fazer oposição e a alertar quem me rodeia para a manada de búfalos imparável em direcção ao desfiladeiro. Enquanto tivermos Benfica para partilhar, cá estarei para tentar fazer do clube aquilo que ele já foi e que este Presente não seja o seu Futuro. Não me condenem por isso. A oposição também faz parte da Democracia. Cá estaremos no futuro para ajudar a consertar e amar o Benfica por inteiro e não apenas este meio Benfica que jaz nas nossas vidas. Sempre festejando as vitórias e com esperança de que seja eu aquele que está errado.
Hoje tem de ser 25 de Abril.
Eu leio, possivelmente, pela mesma razão que alguns jogam videojogos: para estar abstraído num outro Mundo, que muitas das vezes é o nosso. Deixo de ser espectador deste Mundo através do meu olhar e passo a sê-lo através dos olhos de um outro alguém. Às vezes, não quero deixar de ver esse outro olhar e isso é o que de mais cruel tem a leitura - lembrar-me de que tenho de ver pelos meus olhos até ao fim. Fechar um livro tem o mesmo efeito aterrador do toque de um despertador de madrugada.
Há vários escritórios portugueses contemporâneos a escrever muito bem: João Tordo, Afonso Cruz, Isabela Figueiredo, Valter Hugo Mãe.
Depois há Gonçalo M. Tavares, que escreve como um Prémio Nobel deveria escrever.
Os pontos de interrogação pertencem à infância, os pontos de exclamação pertencem ao amor. Aquilo que me tranquiliza mesmo são os pontos finais. Às vezes, não é imediato. Se a serenidade não chega, caro leitor, então não foi um ponto final. Talvez um ponto e vírgula ou - pior ainda! - umas reticências. Às vezes, as reticências só se apagam com uma dose de Diazepam.
Parágrafo.
"Quero isto, mas não assim" - outra forma de dizer que não sabemos o que as coisas são quando decidimos (sim, leu bem, decidimos) aquilo que queremos.
As segundas-feiras são difíceis porque pesam como uma obra por fazer.
Dizem que somos feitos de contradições. Eis a maior de todas elas: não busco coerência na minha essência, mas quero que os meus actos sejam consistentes com as minhas palavras.
Viajar serena.
O que é a morte do meu avô comparada com as pirâmides de Gizé ou força das ondas da Nazaré?
Raramente choramos o fim de alguém. Choramos quase sempre a nossa própria morte.
Os médicos, essencialmente, salvam pessoas em troca de dinheiro. São uma espécie de Deus Todo-Poderoso a recibos verdes.
Li em "O Luto de Elias Gros" que o amor só se sente verdadeiramente na ausência. Frase certeira.
Não entendo como se pode ser ingénuo ao ponto de achar que não existem fantasmas. Todos nós somos assombrados por algo. Às vezes, toda a vida. Para uma casa estar assombrada, basta ter uma pessoa no seu interior. Nunca haverá fantasmas em casas vazias.
Segunda-feira treze. Isto é que é azar. Deixem a reputação das sextas em paz!
Vou agora sair de casa para votar. Fiz mentalmente o derradeiro teste à convicção do meu sentido de voto: que candidato tem mais jeito para cumprimentar e deixar-se fotografar com os padrinhos da marcha do Alto do Pina?