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Há um certo provincianismo em Portugal que se vislumbra numa histeria em ter cá as desgraças de outros países desenvolvidos. Percebeu-se isso, por exemplo, antes de termos os primeiros casos de Covid. Era uma desilusão sempre que se percebia que ainda não tinha chegado a nossa vez até que - finalmente! - temos Covid! Nós, aqui pequenos neste canto da Europa, a ombrear com os maiores nos seus males. Portugal! Portugal! Portugal!
Se pudéssemos ver-nos em terceira pessoa como alguns videojogos de tiros, certamente que seríamos muito mais contidos. Seria muito mais violento vermo-nos de fora a cometer erros. A ideia que temos de nós próprios seria completamente diferente. Se pudéssemos viver a olhar para os nossos olhos, não haveria extrovertidos.
Não há qualquer dúvida de que o eu é mais vezes os meus olhos do que o meu olhar.
Ninguém gosta de se sentir conformado. Quando tudo corre bem, tentamos encontrar algo com que batalhar para justificar um fim maior para a nossa imobilidade. Veja-se nas empresas: se estou satisfeito com o meu trabalho, rapidamente ergo uma sobrancelha para analisar que batalha posso travar e dar sentido à minha permanência. Veja-se nas relações: se está tudo sereno, faz sentido reavaliar e encontrar nova batalha: casamento, comprar casa, ter um filho, mudar de país. O importante é sentirmo-nos guerreiros e não acomodados. É por isso que nunca sentimos "é isto" mesmo quando era aquilo.
Uma das conversas mais ocas do mundo corporativo é a conversa sobre vestir a camisola. Quando uma empresa pede aos seus trabalhadores para vestirem a camisola, está a reconhecer que eles não o estão a fazer e a determinar que a correcção deve vir apenas do lado dos trabalhadores sem qualquer esforço para perceber porque não acontece naturalmente. Quando uma pessoa diz que nos seus trabalhos veste sempre a camisola, está a dizer-nos que não veste aquela camisola por acreditar nela. Simplesmente veste qualquer uma que lhe seja disponibilizada. Dito isto, e sem qualquer intenção de assediar alguém, sugiro um striptease: dispam as camisolas, por favor.
Por enquanto, tudo corre sem problemas de maior. Naturalmente, isto deixa-me muito pessimista.
Assumiu as rédeas da situação (à volta do seu pescoço). Passara a vida a ser cavalgado. Doravante, seria cavalgadura à mesma, mas sempre a trote - já era qualquer coisa.
Por falar em auto-ajuda: é muito difícil conviver com o próprio erro. Invejo quem tem fé inabalável em Deus.
Para um livro ser de auto-ajuda não deveria ser escrito pelo próprio?
Ainda sobre a Guerra: todos nós estamos em Guerra com algo. Na maior parte das vezes, connosco mesmos - ou contra nós.
Ouvi o senhor que manda nos Bombeiros a dizer que a reunião que vai ter para resolver o problema da demora do INEM na assistência aos pacientes já estava marcada há 10 dias. Como se fosse uma coisa boa. Há 10 dias perceberam que era necessário fazer alguma coisa e arranjou-se forma de agir 10 dias e pelo menos 3 mortes depois. É gerir os serviços de urgência como quem gere um cabeleireiro - se marcarmos um corte de cabelo para daqui a 15 dias, o cabelo não continua a crescer?
Lendo apenas este blog, parece que tenho uma obsessão qualquer com a temperatura da água. Não é caso para tanto. Apenas odeio água fria.
As banalidades são uma espécie de água tépida que nos ajuda a descontrair e nos deixa uma sensação agradável. É, no entanto, a água fria que nos aguça os sentidos pela forma como parece entranhar-se nos nossos ossos. Alguém tomaria um banho de água tépida antes de uma batalha? Ficaria para depois, se sobrevivêssemos, porque o que importa é ter saúde.
Toda a vida os pais tiveram de resolver as birras dos filhos e não podiam recorrer a ecrãs para os distrair. Cometiam-se erros diferentes. Por exemplo, educava-se as crianças de modo a que elas um dia só conseguissem aturar as birras dos filhos metendo-lhes um tablet à frente do focinho.
Afinal, é hoje que começa o ano. O ano começa sempre na primeira segunda-feira de cada ano. O ano só começa com o choque térmico iniciado pelo som do despertador - o choque térmico entre o que está cá dentro e aquilo que há lá fora.
Ouvimos, por aí, várias pessoas dizer frequentemente que a política, tal como o futebol ou a religião, não se discute. Se a política é essencialmente discussão, o que sobra se não for discutida?
Não se considerava funcionário da empresa porque ultimamente não andava a funcionar lá muito bem.
Ainda sobre a mudança de ano: temos sempre esperança de que as regras possam ter mudado com a mudança de ano, mas, como dizia ontem, está tudo igual. Se fosse possível mudar uma regra, sem dúvida que colocava os Deuses na Terra e o Homem no céu. Quando olhassem para cima, poderia dizer com maior à-vontade: "(Com todo o respeito) Olhem bem para a merda que fizeram! Agora caminhem com amor no coração e confiança em mim, que vos coloquei no meio dessa pocilga. E não se esqueçam de agradecer!".
Deve ser por isto que eu nunca poderia ser um Deus. Só de me imaginar a olhar um Deus de cima para baixo e começo logo a tratá-lo como se eu fosse Deus e ele humano.
Afinal, continua tudo igual.