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Há algo de perturbador nos posts do Nuno Markl a partir do hospital. É certo que não está a prejudicar ninguém e que possivelmente as redes sociais acabam por ser um escape e uma forma de passar o tempo. No entanto, dou por mim a fazer pensar no grau de adicção que a maioria das pessoas tem às redes sociais ao ponto de ser normal postar cada um dos pequenos passos da convalescença. Já ninguém vê as redes sociais como espaço público: seria impensável o Nuno Markl entrar no café e contar a estranhos o episódio em que teve de interromper a visita da Catarina Furtado porque o laxante fez efeito. Por outro lado, há uma quase romantização involuntária de todo o sofrimento que está a viver: os exercícios para recuperar o corpo paralisado são a "redescoberta do corpo", as mensagens, visitas e prendas que recebe são uma onda de amor. Quase parece mais um episódio de aventura do que um drama. Bem sei que o meu pessimismo me faz olhar para as coisas em tons mais escuros, mas será que isto acontece apenas pela forma como olhamos para o que nos acontece ou não será também porque a necessidade de dopamina é tal na nossa sociedade que nem nos momentos mais duros das nossas vidas a conseguimos dispensar (se calhar, até a necessitamos mais)? Isto não é uma crítica exclusiva a Nuno Markl - cuja profissão o obriga a depender daquilo que os outros pensam para viver e em que pode também haver algum receio de cair no esquecimento pela incerteza do seu precário estado de saúde. É uma reflexão global sobre a forma adicta com que lidamos com o pequeno ecrã e como aceitamos que derrubem as fronteiras entre espaço público e espaço privado.